São Francisco de Sales
Sábado, 24 de janeiro de 2026
Resumo do dia
Francisco nasceu em 21 de agosto de 1567 no Castelo de Sales (Château de Sales), na região do Ducado de Saboia — território que compreendia partes do que hoje é o sudeste da França e o noroeste da Itália, com capital em Chambéry e Annecy. A família Sales pertencia à antiga nobreza saboiana, possuindo terras, títulos e influência política. Seu pai, François de Boisy, senhor de Sales e de Nouvelles, era um fidalgo austero, ambicioso e profundamente orgulhoso da linhagem familiar. Sua mãe, Françoise de Sionnaz, era uma mulher de fé doce e piedade profunda, cuja influência espiritual sobre o filho seria decisiva. Francisco foi o primogênito de treze filhos — posição que trazia consigo o peso de todas as expectativas paternas: seria ele o herdeiro, o magistrado, o senador, o homem que elevaria ainda mais o prestígio da casa de Sales.
Desde a infância, Francisco revelou uma combinação rara de dons: inteligência aguda, memória prodigiosa, temperamento sensível e uma inclinação natural para a piedade que encantava a mãe e inquietava o pai. Era uma criança dócil mas resoluta, de saúde delicada nos primeiros anos, que preferia a oração e a leitura aos jogos e à caça — atividades que a nobreza saboiana considerava indispensáveis para a formação de um cavalheiro. Seu pai, sem se opor à piedade do filho, tratou de canalizá-la para aquilo que entendia como prático: uma formação de excelência que preparasse Francisco para a magistratura ou a diplomacia.
A educação de Francisco foi, de fato, excepcional. Estudou primeiro em La Roche-sur-Foron e depois no prestigioso Colégio de Clermont (futuro Colégio Louis-le-Grand), em Paris, dirigido pelos jesuítas — a ordem religiosa que, naquele final do século XVI, representava a vanguarda intelectual e pedagógica da Reforma Católica. Em Paris, Francisco mergulhou nos estudos de humanidades, retórica, filosofia e teologia, destacando-se rapidamente entre os melhores alunos. Aprendeu grego, hebraico e outras línguas, além de aprofundar-se nos clássicos latinos e nos Padres da Igreja. Paris era, naquele tempo, o epicentro das guerras de religião francesas — o conflito sangrento entre católicos e huguenotes (calvinistas) que dilacerava a França havia décadas. O jovem Francisco testemunhou de perto a tensão religiosa, o fanatismo de ambos os lados e a violência que a fé mal vivida podia gerar — experiências que marcariam profundamente a sua futura abordagem pastoral, centrada na mansidão e no diálogo em vez da imposição e da força.
Foi em Paris, aos dezenove anos, que Francisco atravessou a mais profunda crise espiritual de sua vida — uma provação interior que quase o destruiu e que, paradoxalmente, moldou para sempre a sua espiritualidade. Estudando teologia na universidade, Francisco deparou-se com o debate sobre a predestinação — a questão de saber se Deus, desde toda a eternidade, destinou alguns homens à salvação e outros à condenação. O tema, central na teologia calvinista mas também presente em correntes do pensamento católico (especialmente na interpretação rigorista de Santo Agostinho), apoderou-se da mente de Francisco com uma força devastadora. O jovem foi tomado por uma angústia atroz: e se ele estivesse entre os condenados? E se, por mais que amasse a Deus, estivesse predestinado ao inferno? E se todo o seu amor, toda a sua piedade, toda a sua entrega fossem inúteis diante de um decreto divino irrevogável?
A crise foi tão severa que Francisco adoeceu fisicamente. Perdeu o apetite, o sono, a cor do rosto. Emagreceu dramaticamente. Seus amigos e mestres ficaram alarmados. Durante semanas — segundo algumas fontes, mais de um mês —, viveu num tormento interior que descreveu mais tarde como um verdadeiro inferno antecipado: a sensação de estar separado de Deus para sempre, de amar um Deus que talvez o tivesse rejeitado desde a eternidade. Era a noite escura da alma na sua forma mais radical — não a ausência de fé, mas a presença de uma fé que temia ser inútil.
A resolução veio num ato de abandono heroico. Em dezembro de 1586, Francisco entrou na igreja de Saint-Étienne-des-Grès, em Paris, ajoelhou-se diante de uma imagem da Virgem Maria (a célebre Notre-Dame de Bonne Délivrance) e fez uma oração que se tornou o momento fundador de toda a sua espiritualidade: "Senhor, aconteça o que acontecer, quer me condeneis, quer me salveis, eu Vos amarei ao menos nesta vida, já que não me será dado amar-Vos na eternidade. Ao menos aqui, Senhor, eu Vos amarei." Naquele instante, a angústia se dissipou completamente — como uma febre que cede de súbito. Francisco levantou-se curado, em paz, transformado. Tinha descoberto o princípio que governaria toda a sua vida e toda a sua doutrina: o amor puro a Deus, desinteressado, que não ama por medo do castigo nem por esperança de recompensa, mas simplesmente porque Deus é Deus e merece ser amado. Esta experiência fez de Francisco, para sempre, o doutor do amor de Deus — aquele que ensinaria ao mundo que a santidade não se constrói sobre o medo, mas sobre a confiança.
Após Paris, o pai enviou Francisco à Universidade de Pádua, na Itália, para estudar Direito — a formação que o prepararia para a brilhante carreira jurídica e política que o senhor de Sales planejava para o primogênito. Francisco obedeceu, como sempre, com respeito filial, mas em Pádua, paralelamente ao estudo do Direito Civil e Canônico (no qual obteve o doutorado in utroque jure — em ambos os direitos — com distinção brilhante), continuou aprofundando seus estudos de teologia e Sagrada Escritura com o padre jesuíta Antonio Possevino, que se tornou seu diretor espiritual. Foi em Pádua que a vocação sacerdotal de Francisco amadureceu definitivamente. Ao concluir o doutorado em 1591, voltou à Saboia com o diploma que o pai desejava — mas com o coração inteiramente voltado para outro caminho.
O confronto com o pai foi inevitável e doloroso. O senhor de Sales já havia providenciado tudo para a carreira do filho: obtivera para ele a nomeação como senador no Senado de Saboia (um dos postos mais prestigiosos da magistratura) e arranjara um casamento vantajoso com uma jovem da nobreza. Francisco, com firmeza respeitosa mas inabalável, recusou ambos. Declarou ao pai que desejava tornar-se sacerdote. O velho fidalgo ficou furioso — via nos planos do filho a ruína de todas as suas ambições dinásticas. Houve discussões, pressões, apelos emocionais. Francisco manteve-se firme, mas nunca faltou com o respeito ao pai. A crise familiar só se resolveu quando, por intervenção providencial, ficou vago o posto de preboste (preposto) do Capítulo da Catedral de Genebra — a mais alta dignidade eclesiástica da diocese depois do bispo. O primo de Francisco, o cônego Louis de Sales, renunciou ao cargo em seu favor. O pai, ao ver que o filho ocuparia uma posição de prestígio mesmo na Igreja, acabou por ceder — não com alegria, mas com resignação.
Francisco foi ordenado sacerdote em 18 de dezembro de 1593, aos vinte e seis anos, e imediatamente assumiu o cargo de preboste do Capítulo de Genebra. Mas o título era, de certo modo, paradoxal: Genebra, a cidade que deveria ser a sede de sua diocese, era desde 1536 a capital do calvinismo, a "Roma protestante" governada segundo os princípios de João Calvino e de seu sucessor Teodoro de Beza. Os católicos haviam sido expulsos da cidade, o bispo residia no exílio em Annecy, e a Missa era proibida em Genebra. O jovem preboste assumia, portanto, um cargo numa diocese cuja capital lhe era inacessível e cujo território — especialmente a região do Chablais, ao sul do Lago Léman (Lago de Genebra) — era em grande parte calvinista.
Foi precisamente para o Chablais que Francisco se dirigiu, numa missão que se tornaria uma das páginas mais extraordinárias da história da evangelização católica. Em setembro de 1594, com apenas um companheiro — seu primo Louis —, partiu a pé para a região montanhosa do Chablais, determinado a reconquistar para a fé católica uma população que havia aderido ao calvinismo há mais de sessenta anos. O bispo de Genebra, Claude de Granier, apoiava a missão, mas havia poucos recursos e muitos perigos: os calvinistas do Chablais não eram indiferentes à religião — eram convictos, organizados e frequentemente hostis. O próprio duque de Saboia, Carlos Emanuel I, que havia reconquistado militarmente o Chablais em 1594, favorecia a missão, mas a reconquista política não significava reconquista espiritual — o povo continuava calvinista.
Os primeiros meses foram de fracasso quase total. Francisco pregava nas igrejas — vazias. Batia de porta em porta — as portas se fechavam. Os habitantes, desconfiados e hostis, recusavam-se a ouvi-lo. Houve ameaças de morte, emboscadas, tentativas de assassinato. Numa noite de inverno, Francisco teve de dormir numa árvore para escapar de uma matilha de lobos. Noutra ocasião, foi atacado por homens armados no caminho e escapou por pouco. O frio, a fome, a solidão e a rejeição constante teriam desencorajado qualquer missionário comum.
Francisco, porém, não era um missionário comum. Sua estratégia era radicalmente diferente da abordagem que prevalecia em muitos esforços de reconversão da época — baseados na pressão política, na coerção social e na polêmica agressiva contra os protestantes. Francisco rejeitou completamente estes métodos. Sua arma era a mansidão. Sua tática era a paciência. Seu instrumento era a palavra escrita.
Quando percebeu que as portas se fechavam à sua pregação oral, Francisco começou a escrever folhetos — pequenos textos manuscritos em que expunha, com clareza, elegância e caridade, os pontos da doutrina católica contestados pelos calvinistas: a presença real de Cristo na Eucaristia, a autoridade do Papa, a intercessão dos santos, o papel da Tradição, a natureza da Igreja. Estes folhetos eram redigidos não no tom polêmico e agressivo dos controversistas da época, mas com um espírito de diálogo respeitoso, como se Francisco estivesse conversando pessoalmente com cada leitor. Deslizava os papéis sob as portas das casas, deixava-os em bancos, mesas e janelas, distribuía-os nos mercados. Pouco a pouco, as pessoas começaram a ler — pela curiosidade, se não pela fé. E começaram a pensar. E começaram a perguntar. E começaram a voltar.
Estes folhetos — reunidos posteriormente sob o título de Controvérsias (Les Controverses) — são considerados a primeira grande obra de Francisco de Sales e um marco na história da apologética católica. Neles, já se percebe o estilo inconfundível que faria de Francisco um dos maiores escritores espirituais de todos os tempos: a clareza cristalina da argumentação, a ausência de rancor ou desprezo pelo adversário, a capacidade de apresentar a verdade não como arma de guerra, mas como luz que se oferece a quem está na escuridão.
O resultado da missão do Chablais foi extraordinário. Em quatro anos de trabalho incansável — pregação, visitas domiciliares, diálogo, folhetos, celebrações públicas, debates teológicos —, Francisco reconverteu ao catolicismo a grande maioria da população da região. Segundo as estimativas tradicionais, cerca de sessenta a setenta e dois mil calvinistas retornaram à fé católica (os números variam conforme as fontes e provavelmente incluem algum exagero hagiográfico, mas mesmo estimativas mais conservadoras reconhecem um resultado impressionante). O mais notável é que estas conversões foram obtidas sem violência, sem coerção e sem uso da força política — num tempo em que a norma era exatamente o oposto. Francisco demonstrou, por ação e não apenas por teoria, que a verdade apresentada com amor é mais poderosa do que a verdade imposta pela espada.
Em 1599, Francisco foi nomeado bispo coadjutor de Genebra, com direito de sucessão. Em 1602, com a morte de Claude de Granier, tornou-se Bispo de Genebra, com sede em Annecy — cargo que exerceu durante vinte anos, até o fim de sua vida. Seu episcopado foi um modelo de zelo pastoral que impressionou toda a Europa católica.
Como bispo, Francisco transformou a diocese. Implementou com rigor e criatividade as reformas do Concílio de Trento, que muitas dioceses ainda resistiam a adotar meio século depois do encerramento do Concílio: reformou o clero, exigindo formação teológica adequada e vida moral exemplar; visitou pessoalmente todas as paróquias da diocese, incluindo as mais remotas aldeias de montanha, percorrendo a pé caminhos íngremes e perigosos nos Alpes saboianos; instituiu a catequese regular para crianças e adultos, ensinando pessoalmente sempre que possível; reorganizou a administração diocesana; promoveu a pregação frequente e acessível ao povo; ouviu confissões durante horas, acolhendo com igual paciência o nobre e o camponês, o erudito e o analfabeto.
A pregação de Francisco era célebre. Num tempo em que os sermões tendiam a ser longos, rebuscados, carregados de erudição clássica e frequentemente mais destinados a impressionar do que a converter, Francisco pregava com simplicidade, clareza e calor. Seus sermões eram breves, diretos, repletos de imagens do cotidiano — colhidas da natureza, da agricultura, da vida doméstica — que tornavam as verdades da fé acessíveis a todos. Dizia: "Falo a linguagem humana comum. Prefiro ser entendido por dez pessoas do que admirado por dez mil." E também: "O bom pregador é como a abelha: tira o mel de muitas flores e oferece-o a todos, sem ficar com nada para si."
Mas foi como escritor espiritual que Francisco de Sales deixou a marca mais profunda e duradoura na história da Igreja. Duas obras, sobretudo, imortalizaram-no e mudaram para sempre a história da espiritualidade cristã:
A Introdução à Vida Devota (Introduction à la Vie Dévote), publicada em 1609, é talvez a obra de espiritualidade mais lida de todos os tempos depois da Imitação de Cristo. O livro nasceu de cartas de direção espiritual que Francisco escrevera a Madame de Charmoisy (Louise du Chastel), uma prima por casamento que lhe pedira orientação para viver uma vida cristã mais profunda sem abandonar as obrigações do mundo — o casamento, a família, a vida social, os deveres de corte. Francisco reuniu, revisou e ampliou essas cartas, criando um guia completo de vida espiritual destinado não a monges, freiras ou sacerdotes, mas a leigos vivendo no mundo — homens e mulheres comuns, casados, comerciantes, soldados, cortesãos, servidores públicos.
Esta era a grande revolução de Francisco: afirmar — contra séculos de prática e mentalidade que reservavam a "verdadeira devoção" à vida religiosa consagrada — que a santidade é para todos, em qualquer estado de vida. "É um erro, ou melhor, uma heresia", escreveu, "querer banir a vida devota do acampamento dos soldados, da oficina dos artesãos, da corte dos príncipes, do lar dos casados." A devoção, ensinava Francisco, não consiste em exercícios extraordinários, mas em fazer as coisas ordinárias com amor extraordinário. A dona de casa que cozinha com amor a Deus pratica a devoção tanto quanto a monja que reza no coro. O comerciante que é justo nos negócios serve a Deus tanto quanto o eremita no deserto. A santidade não está em fugir do mundo, mas em transformar o mundo de dentro para fora, pelo amor.
A Introdução foi um sucesso editorial sem precedentes. Traduzida quase imediatamente para todas as principais línguas europeias, tornou-se o livro de cabeceira de reis e camponeses, bispos e soldados, freiras e cortesãs arrependidas. O rei Henrique IV da França — ele próprio um convertido do calvinismo — leu-o com entusiasmo. O rei Jaime I da Inglaterra, embora protestante, elogiou-o publicamente. Até nas cortes protestantes, o livro era lido com admiração pela beleza do estilo e pela sabedoria dos conselhos. É uma obra que permanece extraordinariamente atual: quem a lê hoje encontra conselhos sobre gestão do tempo, equilíbrio entre trabalho e oração, manejo das emoções, vida conjugal, amizade, modéstia, alegria — tudo apresentado com uma elegância literária e uma doçura de espírito que fazem do livro uma experiência não apenas espiritual, mas estética.
A segunda grande obra é o Tratado do Amor de Deus (Traité de l'Amour de Dieu), publicado em 1616 — uma obra mais ambiciosa, mais profunda e mais exigente do que a Introdução. Se a Introdução é um guia prático para iniciantes na vida espiritual, o Tratado é uma exploração teológica e mística do amor divino em toda a sua extensão e profundidade. Em doze livros, Francisco percorre a história do amor entre Deus e a alma humana — desde a criação até a união mística — com uma combinação de rigor teológico, fervor místico e beleza literária que faz do Tratado uma das obras-primas da literatura espiritual cristã. O livro expõe a doutrina do "santo indiferentismo" (sainte indifférence) — não a indiferença no sentido vulgar, mas o estado de uma alma tão conformada à vontade de Deus que aceita com igual paz a consolação e a desolação, a saúde e a doença, a vida e a morte, desejando apenas o que Deus deseja. Esta doutrina, que encontra raízes em Santo Inácio de Loyola e que influenciaria profundamente Madame Guyon, Fénelon e toda a tradição mística posterior, tem sua formulação mais equilibrada e segura em Francisco de Sales.
O outro grande legado de Francisco foi a fundação, junto com Santa Joana Francisca de Chantal — nobre viúva francesa que se tornou sua filha espiritual e colaboradora —, da Ordem da Visitação de Santa Maria (Visitandines), em 6 de junho de 1610, em Annecy. A concepção original de Francisco era revolucionária: criar uma congregação religiosa feminina sem clausura rígida, cujas irmãs pudessem sair do convento para visitar os doentes e os pobres — daí o nome "Visitação", evocando a visita de Maria a Isabel. Francisco queria acolher na vida religiosa mulheres que, por idade, saúde frágil ou outras limitações, não seriam aceitas nas ordens existentes, cujas austeridades físicas eram severas. A regra da Visitação era doce: moderação no jejum, ênfase na oração interior, vida comunitária fraterna, e o lema que resumia todo o espírito salesiano: "Vive Jesus!"
No entanto, a resistência do arcebispo de Lyon, Denis-Simon de Marquemont, obrigou Francisco a aceitar a imposição da clausura às Visitandinas, conforme as normas do Concílio de Trento para ordens femininas. Francisco cedeu com desgosto, mas adaptou a regra sem perder o essencial: mesmo na clausura, as Visitandinas mantiveram o espírito de doçura, de acolhimento e de vida interior que as distinguia de outras ordens. A Ordem cresceu rapidamente: à morte de Francisco havia treze mosteiros; um século depois, mais de cento e cinquenta espalhados pela Europa. A Visitação tornou-se um dos grandes centros de espiritualidade feminina da Igreja e, séculos mais tarde, produziria uma de suas maiores místicas: Santa Margarida Maria Alacoque, a religiosa visitandina de Paray-le-Monial que recebeu as revelações do Sagrado Coração de Jesus e deu impulso a uma das devoções mais populares do catolicismo.
A amizade espiritual entre Francisco e Joana de Chantal é uma das mais belas e profundas da história da Igreja — comparável à de São Francisco e Santa Clara, ou à de São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila. A correspondência entre ambos — milhares de cartas preservadas — constitui um dos mais ricos acervos de direção espiritual de todos os tempos e revela duas almas de profundidade extraordinária, unidas por um amor que era simultaneamente humano e divino, terno e casto, exigente e misericordioso.
Francisco de Sales era, segundo todos os testemunhos, um homem de temperamento naturalmente colérico e impaciente — dado que surpreende profundamente quem o conhece apenas pela doçura de seus escritos. Ele próprio confessou que a mansidão pela qual se tornou famoso não era um dom natural, mas uma conquista diária, obtida à custa de luta interior constante. Conta-se que, ao ser provocado ou contrariado, o sangue lhe subia ao rosto e ele cerrava os punhos — mas, por um esforço da vontade sustentado pela graça, dominava a explosão e respondia com calma. Um dos seus secretários, após sua morte, revelou que jamais, em anos de convivência, vira Francisco perder a compostura ou tratar alguém com aspereza — mas que frequentemente o via lutar consigo mesmo para manter a serenidade. Esta informação é preciosa: a mansidão de Francisco não era a placidez de quem não sente, mas a vitória de quem sente tudo e escolhe, a cada instante, o amor em vez da raiva.
Suas máximas sobre a mansidão tornaram-se célebres e atravessaram os séculos:
"Nada se faz por força; tudo se faz por amor e com amor."
"Apanham-se mais moscas com uma gota de mel do que com um barril de vinagre."
"Sede tudo para todos. Sorrí a todos. O coração duro repele; o coração doce atrai."
"O homem que possui a mansidão cristã é afável e terno com todos: está pronto para perdoar, para desculpar as imperfeições alheias, e a doçura da sua índole transforma-se numa amável equidade que o inclina a ceder, a adaptar-se, a agradar em tudo o que não é pecado."
Francisco era também dotado de um fino senso de humor — qualidade rara entre os santos e que ele considerava essencial à vida espiritual. Desconfiava da tristeza como de uma tentação e aconselhava seus dirigidos a cultivar a alegria: "Um santo triste é um triste santo." Quando alguém lhe perguntou qual era a melhor penitência, respondeu: "A melhor penitência é a paciência." Quando uma jovem religiosa lhe confessou, angustiada, que não conseguia meditar durante a oração, Francisco respondeu-lhe com ternura: "Não te preocupes. Deus não se ama apenas com a cabeça. Ama-o com o coração, e isso basta."
Nos últimos anos de vida, a saúde de Francisco declinou progressivamente. O trabalho incessante — pregação, confissões, visitas pastorais, correspondência volumosíssima (estima-se que escreveu mais de vinte mil cartas ao longo da vida), fundação e acompanhamento dos mosteiros da Visitação, audiências com fiéis e autoridades — consumiu suas forças. Sofria de diversas enfermidades, mas continuava ativo, recusando-se a diminuir o ritmo.
Em dezembro de 1622, Francisco viajou a Lyon para encontrar-se com o duque de Saboia e com o rei Luís XIII da França. A viagem, no rigor do inverno, agravou seu estado. Em 27 de dezembro, sofreu um derrame cerebral (ou, segundo outras fontes, uma apoplexia) no mosteiro da Visitação de Lyon. Recebeu os últimos sacramentos com plena consciência e, nas horas que antecederam a morte, repetiu várias vezes as palavras que resumiam toda a sua vida e toda a sua doutrina: "Deus é o Deus do coração humano." E, quando lhe perguntaram qual era a sua última vontade, respondeu com uma só palavra: "Humildade."
Francisco de Sales faleceu em 28 de dezembro de 1622, em Lyon, aos cinquenta e cinco anos. Seu corpo foi trasladado para Annecy, onde foi sepultado na igreja do primeiro mosteiro da Visitação, ao lado de Santa Joana Francisca de Chantal (que morreria em 1641). Os restos mortais de ambos repousam juntos até hoje na Basílica da Visitação em Annecy.
Foi beatificado em 1661 pelo Papa Alexandre VII e canonizado em 1665 pelo mesmo pontífice. Em 1877, o Papa Pio IX proclamou-o Doutor da Igreja, com o título de Doctor Amoris — Doutor do Amor —, reconhecendo que a sua contribuição central à teologia e à espiritualidade cristã foi a doutrina do amor de Deus como caminho universal de santificação. Em 1923, o Papa Pio XI declarou-o padroeiro dos escritores e jornalistas católicos — título que homenageia tanto os folhetos do Chablais (considerados precursores do jornalismo católico) quanto a qualidade literária incomparável de suas obras espirituais.
São Francisco de Sales é também padroeiro dos surdos (em memória de uma tradição segundo a qual ensinou a doutrina cristã a um jovem surdo-mudo por meio de sinais e gestos, desenvolvendo uma forma rudimentar de comunicação que antecipava a linguagem de sinais), dos educadores, dos confessores e da imprensa católica. A espiritualidade que fundou — a espiritualidade salesiana, centrada na doçura, no amor de Deus, na santidade acessível a todos e no otimismo espiritual — é o coração da família salesiana, que inclui não apenas as Visitandinas, mas também os Salesianos de Dom Bosco (congregação fundada no século XIX por São João Bosco, que escolheu Francisco de Sales como patrono por sua mansidão e seu amor pela juventude), as Filhas de Maria Auxiliadora, os Oblatos de São Francisco de Sales e inúmeras outras congregações e movimentos inspirados em seu espírito.
Meditação
Há santos que nos assombram pela distância — suas virtudes parecem tão elevadas, seus sacrifícios tão extremos, suas vidas tão distantes da nossa que os admiramos como quem admira estrelas: com reverência, mas sem esperança de alcançá-los. Francisco de Sales não é esse tipo de santo. É um santo que nos puxa para perto. Que se senta ao nosso lado. Que nos olha nos olhos e diz, com aquele sorriso que desarmava os calvinistas do Chablais: "A santidade não é para os outros. É para ti. Aqui. Agora. Exatamente como és."
Esta é a revolução silenciosa de Francisco — mais profunda, em seus efeitos, do que muitas revoluções barulhentas. Num tempo em que a santidade era entendida como privilégio de monges, freiras e eremitas, Francisco declarou que é patrimônio de todos. O soldado no campo de batalha, a mãe que amamenta, o comerciante no balcão, o magistrado no tribunal — todos são chamados à plenitude do amor de Deus, não apesar de sua condição, mas através dela. Não é preciso fugir do mundo para ser santo. É preciso amar a Deus no mundo — e amar o mundo em Deus.
E como amar? Com doçura. Esta é a outra grande lição de Francisco — e talvez a mais difícil, porque parece a mais simples. Num mundo que confunde força com agressividade, firmeza com dureza, zelo com intolerância, Francisco nos recorda que a maior força é a mansidão. Não a mansidão dos fracos — que cedem porque não têm coragem de resistir — mas a mansidão dos fortes, daqueles que, como Francisco, sentem a raiva subir e escolhem, livre e conscientemente, responder com amor. "Apanham-se mais moscas com uma gota de mel do que com um barril de vinagre" — frase simples, quase banal, mas que contém toda uma teologia pastoral. A verdade que não é dita com amor não é recebida como verdade — é recebida como ataque. Francisco reconquistou milhares de calvinistas não porque argumentava melhor (embora argumentasse), mas porque amava mais.
E há ainda aquele jovem de dezenove anos, ajoelhado em Paris, destroçado pela angústia de não saber se Deus o amava, e que fez a oração mais livre e mais corajosa que um ser humano pode fazer: "Senhor, mesmo que me condeneis, eu Vos amarei." Naquele instante, Francisco descobriu que o amor verdadeiro não faz cálculos — e que é justamente quando deixamos de calcular que Deus nos surpreende com uma paz que ultrapassa todo entendimento.
Que o Doutor do Amor nos ensine a amar assim: sem medo, sem cálculo, sem reservas. Com mel, não com vinagre. Com um sorriso que desarma, não com uma espada que fere. E com a certeza de que, se Deus é o Deus do coração humano, então não há coração tão pequeno que não possa conter o Infinito.
Oração
Ó Deus, que para a salvação das almas quisestes que o bispo São Francisco de Sales se fizesse tudo para todos, concedei-nos que, seguindo o seu exemplo, manifestemos sempre a vossa bondade ao serviço dos nossos irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.
(Oração Coleta da Memória de São Francisco de Sales, Bispo e Doutor da Igreja — Missal Romano)
Fonte: Importacao calendario liturgico | Universal