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Santo do Dia

Domingo, 25 de janeiro de 2026

Conversão de São Paulo, apóstolo
Festa Branco Santo

Conversão de São Paulo, apóstolo

Domingo, 25 de janeiro de 2026

Resumo do dia

A Festa da Conversão de São Paulo é uma das celebrações mais singulares do calendário litúrgico, pois não comemora a morte de um santo — como é costume na tradição cristã —, mas o momento decisivo em que o maior perseguidor da Igreja nascente tornou-se o seu maior apóstolo. Nenhuma conversão na história do cristianismo teve consequências tão vastas, tão profundas e tão duradouras quanto a de Paulo. Se Pedro é a rocha sobre a qual Cristo edificou a Igreja, Paulo é o fogo que a espalhou pelo mundo. E tudo começou numa estrada, sob uma luz que cegou os olhos do corpo para abrir os olhos da alma.

Para compreender a magnitude da conversão, é preciso primeiro compreender quem era o homem antes dela.

Saulo — pois este era o seu nome hebraico — nasceu por volta do ano 5 a 8 d.C. em Tarso, capital da província romana da Cilícia, no sudeste da atual Turquia. Tarso não era uma cidade qualquer: era um dos grandes centros intelectuais do mundo antigo, célebre por suas escolas de filosofia, rivalizando com Atenas e Alexandria. O geógrafo Estrabão classificava-a como superior a ambas no fervor pelo estudo. Nascer em Tarso significava crescer na encruzilhada de duas civilizações: a cultura grega, com sua filosofia, retórica e literatura, e a tradição judaica, com sua Lei, seus profetas e sua esperança messiânica. Paulo seria, para sempre, um homem de dois mundos — e foi precisamente esta dupla identidade que fez dele o instrumento providencial para levar o Evangelho de Israel às nações.

Saulo pertencia à tribo de Benjamim — a mesma do primeiro rei de Israel, o rei Saul, de quem provavelmente herdou o nome. Era, portanto, de linhagem nobre dentro do povo judeu. Mas possuía também algo que a maioria dos judeus da diáspora não tinha: a cidadania romana — privilégio raríssimo, que indicava que sua família gozava de posição social e jurídica elevada em Tarso. Esta dupla condição — judeu de nascimento e cidadão romano de direito — acompanharia Paulo por toda a vida e seria decisiva em múltiplos momentos de sua missão: a cidadania romana o protegeria de flagelações ilegais, lhe garantiria o direito de apelação ao imperador e, por fim, o levaria a Roma, onde seu destino se consumaria.

Na infância, Saulo recebeu a formação inicial em Tarso, onde certamente teve contato com a língua e a cultura gregas — escrevia e falava grego com fluência, embora num estilo mais vigoroso do que elegante, que refletia mais o pregador apaixonado do que o retórico polido. Conhecia a filosofia estoica (cujas influências aparecem em suas cartas), os poetas gregos (cita Arato, Menandro e Epimênides em diferentes momentos) e os métodos da retórica helenística. Mas a formação decisiva veio em Jerusalém, para onde foi enviado ainda jovem — provavelmente na adolescência — para estudar aos pés do grande Gamaliel, o mais respeitado mestre fariseu de sua geração, neto do lendário Hillel. Estudar com Gamaliel era o equivalente a frequentar a mais prestigiosa universidade teológica do mundo judaico. Saulo absorveu com avidez a formação rabínica: memorização das Escrituras, técnicas de interpretação (midrash), debates legais, tradições orais dos anciãos. Tornou-se um fariseu — e não um fariseu qualquer, mas um fariseu zeloso, rigoroso, inflexível, que levava a Lei de Moisés com uma seriedade absoluta e via em qualquer desvio doutrinário uma ameaça mortal à identidade do povo de Deus.

O próprio Paulo descreveria mais tarde sua identidade pré-cristã com orgulho não disfarçado: "Circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que se encontra na Lei, irrepreensível" (Fl 3,5-6). Esta autodescrição é reveladora: Saulo não era um judeu morno, nem um cumpridor mecânico de ritos. Era um homem em chamas — em chamas pelo Deus de Israel, pela pureza da fé, pela santidade da Lei. E foi precisamente esta chama que o transformou em perseguidor.

O primeiro encontro de Saulo com o movimento cristão ocorreu em Jerusalém, provavelmente por volta do ano 34 ou 36 d.C., durante o episódio do martírio de Santo Estêvão — o primeiro mártir cristão. Os Atos dos Apóstolos narram que Estêvão, diácono cheio de graça e poder, foi levado diante do Sinédrio acusado de blasfêmia contra Moisés e contra Deus. Seu discurso de defesa — longo, erudito, provocador — culminou numa visão: "Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem de pé à direita de Deus!" (At 7,56). Furioso, o Sinédrio arrastou-o para fora da cidade e o apedrejou. E Lucas, o autor dos Atos, acrescenta um detalhe aparentemente secundário mas carregado de significado: "As testemunhas depuseram os seus mantos aos pés de um jovem chamado Saulo" (At 7,58). E mais: "Saulo aprovava a morte de Estêvão" (At 8,1).

Ali estava Saulo, jovem, ardente, guardando os mantos dos executores enquanto as pedras esmagavam o corpo de Estêvão. Não atirou nenhuma pedra — mas aprovou cada uma delas. Não era o carrasco, mas era o ideólogo. Para ele, Estêvão e os seus seguidores — aqueles judeus que afirmavam que um crucificado chamado Jesus de Nazaré era o Messias de Israel e o Filho de Deus — representavam a mais perigosa das heresias: uma blasfêmia que ameaçava a própria essência da fé judaica. Um Messias crucificado era, para qualquer fariseu instruído, uma contradição nos termos: a Lei de Moisés declarava explicitamente que "maldito é todo aquele que é pendurado no madeiro" (Dt 21,23). Como poderia o Ungido de Deus ser ao mesmo tempo o amaldiçoado de Deus? Era inconcebível. Era blasfêmia. E a blasfêmia devia ser erradicada.

A partir do martírio de Estêvão, Saulo lançou-se a uma perseguição sistemática contra a Igreja nascente. Lucas descreve-o com uma palavra terrível: "Saulo devastava a Igreja" (At 8,3) — o verbo grego elymaineto é o mesmo usado para descrever a devastação causada por um javali numa vinha ou por um exército numa cidade conquistada. Saulo entrava nas casas, arrancava homens e mulheres e os arrastava para a prisão. Forçava cristãos a blasfemar o nome de Jesus sob ameaça de tortura. Perseguia-os não apenas em Jerusalém, mas em toda a Judeia, e quando soube que a diáspora cristã havia se espalhado para outras cidades, decidiu persegui-los também fora das fronteiras de Israel.

O próprio Paulo, anos depois, recordaria este período com uma franqueza brutal e sem atenuantes: "Vós ouvistes qual foi outrora o meu procedimento no judaísmo: com que excesso eu perseguia a Igreja de Deus e a devastava. E no judaísmo ultrapassava muitos dos meus compatriotas da mesma idade, mostrando-me extremamente zeloso das tradições de meus pais" (Gl 1,13-14). E em outra carta: "Eu sou o menor dos apóstolos, e nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus" (1Cor 15,9). Paulo jamais esqueceu, jamais minimizou, jamais se justificou. Carregou a memória da perseguição como uma cicatriz da alma — e como prova permanente de que a graça de Deus é maior do que qualquer pecado.

Foi neste estado de furor zeloso que Saulo obteve cartas do Sumo Sacerdote autorizando-o a ir a Damasco — a grande e antiga cidade da Síria, a cerca de duzentos e quarenta quilômetros ao norte de Jerusalém — para prender os cristãos que haviam fugido para lá e trazê-los acorrentados a Jerusalém. A viagem levava cerca de uma semana a pé ou a cavalo, atravessando a Galileia e o planalto de Golã. Saulo partiu com determinação implacável, levando consigo uma escolta e as credenciais do Sinédrio.

E então aconteceu.

Os Atos dos Apóstolos narram o episódio três vezes — em Atos 9, Atos 22 e Atos 26 —, conferindo-lhe uma importância narrativa sem paralelo no livro. O próprio Paulo refere-se a ele, de forma mais breve, em várias de suas cartas (Gl 1,15-16; 1Cor 9,1; 1Cor 15,8; Fl 3,7-12). A convergência de múltiplos relatos, tanto de Lucas quanto do próprio Paulo, confere ao evento uma solidez histórica excepcional, embora os detalhes variem ligeiramente entre as versões — variações que, longe de enfraquecer a credibilidade, revelam a riqueza de um acontecimento que transbordava qualquer narração única.

Quando Saulo se aproximava de Damasco — provavelmente ao meio-dia, sob o sol escaldante da Síria —, subitamente uma luz vinda do céu, mais brilhante do que o sol do meio-dia, envolveu-o por todos os lados. Saulo caiu por terra — fulminado, cego, prostrado. E ouviu uma voz — não uma voz interior, não uma intuição, não um pensamento, mas uma voz real, audível, pessoal — que lhe dizia em aramaico (a língua materna de Jesus e dos judeus da Palestina): "Shaul, Shaul, lemá at rādēf lī?""Saulo, Saulo, por que me persegues?" (At 9,4).

A pergunta é extraordinária em múltiplos níveis. Primeiro, pela repetição do nome"Saulo, Saulo" —, que evoca a forma como Deus chamava os grandes eleitos do Antigo Testamento: "Abraão, Abraão" (Gn 22,11), "Moisés, Moisés" (Ex 3,4), "Samuel, Samuel" (1Sm 3,10). É uma chamada de intimidade, de urgência, de eleição. Segundo, pelo pronome "me""por que me persegues?". Jesus não disse "por que persegues os meus seguidores" ou "por que persegues a minha Igreja". Disse "me". Nesta única sílaba está contida toda a teologia do Corpo Místico: Cristo identifica-se completamente com os seus membros. Quem persegue a Igreja persegue Cristo. Quem toca num cristão toca em Cristo. A cabeça sente a dor dos membros. Esta revelação — a unidade total entre Cristo e os fiéis — seria o fundamento de toda a eclesiologia paulina e uma das mais profundas intuições teológicas da história cristã.

Saulo, prostrado, tremendo, perguntou: "Quem és tu, Senhor?" — e a resposta veio com simplicidade devastadora: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues" (At 9,5). Naquele instante, o mundo de Saulo desabou. Tudo o que ele acreditava — que Jesus era um blasfemador justamente condenado, que seus seguidores eram hereges perigosos, que persegui-los era servir a Deus — ruiu como um edifício atingido por um terremoto. Se Jesus estava vivo, glorificado, falando do céu — então não era um maldito, era o Senhor. Se era o Senhor — então os cristãos tinham razão. Se os cristãos tinham razão — então Saulo estivera errado o tempo todo. Não apenas errado: havia perseguido, prendido, torturado e talvez causado a morte de inocentes. Havia lutado contra Deus pensando lutar por Deus. O zelote irrepreensível descobriu-se, num instante, o maior dos pecadores.

Jesus ordenou-lhe: "Levanta-te, entra na cidade, e lá te será dito o que deves fazer" (At 9,6). Saulo levantou-se — e descobriu que estava cego. Os olhos que haviam visto a luz do Ressuscitado não podiam mais ver a luz do sol. Os companheiros de viagem, atordoados — haviam visto a luz e ouvido um som, mas não compreendiam o que acontecia —, tomaram-no pela mão e guiaram-no até Damasco como se guia uma criança. O perseguidor que chegara montado, com mandatos de prisão e escolta armada, entrou na cidade cego, tremendo, conduzido pela mão — imagem de uma humilhação total que era, ao mesmo tempo, o nascimento de uma vida nova.

Em Damasco, Saulo foi levado à casa de um homem chamado Judas, na rua chamada Direita (Via Recta) — uma rua que existe até hoje na cidade velha de Damasco, uma das mais antigas ruas continuamente habitadas do mundo. Ali, Saulo permaneceu três dias sem ver, sem comer e sem beber — três dias de escuridão total que evocam os três dias de Jesus no sepulcro. Eram três dias de morte e ressurreição interior: o velho Saulo morria; o novo Paulo nascia. Tudo o que Saulo havia sido — fariseu, perseguidor, zelote — era destruído e reconstruído a partir da única realidade que agora importava: Jesus está vivo, e me amou quando eu o perseguia.

Foi então que Deus interveio uma segunda vez, agora através de um instrumento humano: Ananias, um cristão de Damasco, homem simples e piedoso, que recebeu em visão a ordem de ir à casa de Judas e impor as mãos sobre Saulo para que recuperasse a vista. A reação de Ananias é profundamente humana e compreensível: "Senhor, muitos me falaram deste homem e de todo o mal que fez aos vossos santos em Jerusalém. E aqui ele tem poderes dos sumos sacerdotes para prender todos os que invocam o vosso Nome" (At 9,13-14). Era como se Deus pedisse a uma ovelha que fosse curar o lobo. Mas o Senhor respondeu-lhe com palavras que revelam o plano grandioso que havia por trás daquela conversão: "Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, para levar o meu Nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. Eu lhe mostrarei tudo o que terá de sofrer pelo meu Nome" (At 9,15-16).

Ananias obedeceu. Foi à casa de Judas, encontrou Saulo prostrado na escuridão e, num gesto de coragem e caridade sobre-humanas, impôs-lhe as mãos e disse: "Saulo, meu irmão, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho, enviou-me para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo" (At 9,17). "Meu irmão" — estas duas palavras, dirigidas pelo perseguido ao perseguidor, são um dos momentos mais comoventes de toda a Escritura. Ananias não disse "meu inimigo", nem "meu algoz", nem sequer "pecador arrependido". Disse "meu irmão". Na boca de Ananias, o perdão cristão passou de teoria a realidade.

Imediatamente, caíram dos olhos de Saulo algo como escamas, e ele recuperou a vista. Levantou-se, foi batizado, alimentou-se e recobrou as forças. A cegueira física havia sido o símbolo perfeito da cegueira espiritual: Saulo, que pensava ver tudo com clareza — a Lei, a verdade, o caminho de Deus — estava, na realidade, cego. Foi preciso que perdesse a visão corporal para que os olhos da alma se abrissem. A queda das escamas não foi apenas um milagre físico: foi a imagem visível de uma transformação interior total. O homem que se levantou daquela casa na rua Direita já não era o mesmo que ali entrara. Saulo, o perseguidor, tornara-se Paulo, o apóstolo.

O que se seguiu à conversão foi um percurso que Paulo descreve apenas parcialmente em suas cartas e que Lucas narra nos Atos com lacunas que os estudiosos tentam preencher há séculos. Paulo afirma que, após a conversão, não subiu imediatamente a Jerusalém para consultar os apóstolos, mas retirou-se para a Arábia — provavelmente o reino nabateu, a leste e ao sul de Damasco —, onde permaneceu por um período que pode ter durado até três anos (Gl 1,17-18). O que fez na Arábia? As fontes não dizem. A tradição supõe que foi um tempo de retiro, de oração, de assimilação interior da experiência avassaladora de Damasco — um tempo em que Paulo, sozinho com Deus no deserto, relia todas as Escrituras à luz de Cristo e elaborava as bases daquela teologia que mudaria o mundo. Assim como Moisés passou quarenta anos no deserto antes de libertar Israel, e como Jesus passou quarenta dias no deserto antes de iniciar a pregação, Paulo passou anos no silêncio antes de lançar-se à missão.

De volta a Damasco, começou a pregar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus — causando espanto e escândalo entre os judeus que o conheciam como perseguidor. A reversão era tão completa, tão inexplicável por qualquer lógica humana, que muitos não acreditavam na sinceridade da conversão. Os judeus de Damasco, furiosos, conspiraram para matá-lo, e Paulo teve de fugir da cidade noite adentro, descido por um cesto pelas muralhas (At 9,25; 2Cor 11,33) — detalhe quase cômico na sua humildade: o grande apóstolo, que um dia compareceria diante de reis e governadores, iniciou sua carreira missionária pendurado numa cesta como contrabando.

Três anos após a conversão, Paulo subiu a Jerusalém para encontrar-se com Pedro (Cefas), com quem passou quinze dias, e com Tiago, o irmão do Senhor — os dois pilares da Igreja-mãe. O encontro com Pedro é um dos momentos mais significativos da história cristã: o pescador da Galileia e o fariseu de Tarso, unidos pela fé no mesmo Senhor ressuscitado, lançavam — sem talvez o saber plenamente — as bases de uma Igreja que seria simultaneamente petrina e paulina, enraizada na tradição de Israel e aberta a todos os povos.

A partir deste ponto, a vida de Paulo tornou-se uma das mais extraordinárias aventuras missionárias da história humana. Ao longo de aproximadamente trinta anos — de cerca de 36 a 67 d.C. —, Paulo percorreu milhares de quilômetros por terra e por mar, fundando comunidades cristãs em algumas das maiores cidades do mundo antigo: Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra, Derbe, Filipos, Tessalônica, Bereia, Atenas, Corinto, Éfeso, Colossos, Roma. Realizou ao menos três grandes viagens missionárias documentadas nos Atos dos Apóstolos, além de inúmeras jornadas menores, navegando por mares traiçoeiros, atravessando montanhas, cruzando desertos, enfrentando perigos que ele próprio enumera numa passagem autobiográfica de intensidade inesquecível:

"Cinco vezes recebi dos judeus quarenta açoites menos um; três vezes fui flagelado com varas; uma vez fui apedrejado; três vezes naufraguei; passei um dia e uma noite no abismo do mar. Em viagens, muitas vezes, em perigos de rios, perigos de salteadores, perigos da parte dos meus compatriotas, perigos da parte dos gentios, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejuns repetidos, em frio e nudez" (2Cor 11,24-27).

Em cada cidade por onde passava, Paulo seguia um método consistente: ia primeiro à sinagoga, pregando aos judeus que Jesus era o Messias prometido nas Escrituras. Alguns se convertiam; muitos rejeitavam a mensagem, frequentemente com violência. Paulo então voltava-se para os gentios — gregos, romanos, bárbaros — anunciando-lhes que o Deus de Israel os chamava à salvação não pela circuncisão e pela observância da Lei de Moisés, mas pela fé em Jesus Cristo. Esta era a intuição central, a revolução teológica de Paulo: a salvação é pela graça, recebida pela , e não pelas obras da Lei. "O justo viverá pela fé" (Rm 1,17; Gl 3,11). Esta afirmação — que Paulo via não como novidade sua, mas como redescoberta do coração das Escrituras — abria as portas da salvação a toda a humanidade, sem distinção de raça, classe ou cultura: "Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gl 3,28).

A questão da relação entre a Lei de Moisés e a fé em Cristo foi o grande debate teológico da Igreja primitiva — e Paulo esteve no centro dele. No chamado Concílio de Jerusalém (c. 49 d.C.), narrado em Atos 15, a questão foi posta frontalmente: os gentios convertidos ao cristianismo deviam ser circuncidados e observar a Lei mosaica? Ou a fé em Cristo era suficiente? Paulo e Barnabé defenderam com vigor a liberdade dos gentios. Pedro apoiou-os. Tiago propôs uma solução de compromisso. O resultado foi a decisão que abriu definitivamente as portas da Igreja ao mundo não-judeu — decisão que Paulo já praticava em suas missões e que o Concílio formalizou. Sem esta decisão — e sem a teologia paulina que a fundamentou —, o cristianismo poderia ter permanecido como uma seita judaica marginal. Paulo fez dele uma religião universal.

As Cartas (Epístolas) de Paulo são o coração de seu legado teológico e literário. Das vinte e sete obras do Novo Testamento, treze são atribuídas a Paulo (sete são consideradas indiscutivelmente autênticas pela maioria dos estudiosos: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon; as demais — Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo e Tito — são debatidas quanto à autoria direta, mas pertencem à tradição paulina). Estas cartas — escritas não como tratados acadêmicos, mas como respostas urgentes a problemas concretos de comunidades concretas — contêm algumas das páginas mais profundas, mais belas e mais influentes de toda a literatura universal.

A Carta aos Romanos é considerada a magna carta da teologia cristã — uma exposição sistemática da salvação pela graça, da justificação pela fé, do papel de Israel no plano de Deus e da vida no Espírito. A Primeira Carta aos Coríntios contém o célebre Hino à Caridade (1Cor 13) — "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse caridade, seria como bronze que soa ou como címbalo que retine" — talvez o texto mais citado e mais amado de toda a Bíblia, lido em casamentos, funerais e celebrações em todo o mundo. A Carta aos Gálatas é o grito apaixonado da liberdade cristã: "É para a liberdade que Cristo vos libertou!" (Gl 5,1). A Carta aos Filipenses, escrita da prisão, é um hino à alegria paradoxal de quem sofre por amor: "Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro" (Fl 1,21). E contém o Hino Cristológico (Fl 2,5-11) — "Cristo Jesus, sendo de condição divina, não se apegou à sua igualdade com Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo..." — um dos textos teológicos mais densos e sublimes do Novo Testamento.

Paulo foi preso diversas vezes. A última e definitiva prisão ocorreu em Roma, para onde fora enviado após invocar seu direito de cidadão romano de ser julgado pelo imperador (At 25,11). A tradição — apoiada por Clemente de Roma (c. 96 d.C.), Eusébio de Cesareia e outros autores antigos — afirma que Paulo foi martirizado em Roma durante a perseguição de Nero, provavelmente no ano 67 d.C. (algumas fontes indicam 64 ou 65). Como cidadão romano, não podia ser crucificado: foi decapitado com a espada, na localidade das Três Fontes (Tre Fontane), na Via Ostiense, ao sul de Roma. A tradição pinta que, ao ser decapitada, a sua cabeça saltou três vezes no chão, e em cada ponto brotou uma fonte de água — origem do nome do local, onde hoje se ergue a Abadia das Três Fontes (Abbazia delle Tre Fontane). Seu corpo foi sepultado na Via Ostiense, no local sobre o qual o imperador Constantino ergueria, no século IV, a Basílica de São Paulo Fora dos Muros (San Paolo fuori le Mura) — uma das quatro basílicas papais de Roma, que conserva até hoje o sarcófago do apóstolo sob o altar-mor, descoberto e confirmado por escavações arqueológicas em 2006.

O legado de Paulo é, simplesmente, imensurável. Sem ele, o cristianismo não existiria como o conhecemos. Foi Paulo quem articulou teologicamente a relação entre a Lei e a Graça, entre Israel e a Igreja, entre a Cruz e a Ressurreição, entre a liberdade e o amor. Foi Paulo quem levou o Evangelho aos gentios e fez do cristianismo uma religião universal. Foi Paulo quem escreveu as cartas que formam o núcleo doutrinal do Novo Testamento. Foi Paulo quem formulou — muitas vezes antes dos próprios Evangelhos serem escritos — as doutrinas da justificação pela fé, do Corpo Místico de Cristo, dos carismas do Espírito Santo, da ressurreição dos mortos e da esperança escatológica que sustenta a vida cristã. Santo Agostinho foi convertido por Paulo. Martinho Lutero foi transformado por Paulo. John Wesley foi incendiado por Paulo. Praticamente toda a teologia cristã — católica, ortodoxa e protestante — é, em alguma medida, teologia paulina.

E tudo começou numa estrada, numa luz, numa voz, numa queda.

Meditação

Há algo de escandalosamente consolador na conversão de São Paulo. Se Deus pode converter o maior perseguidor da Igreja no maior apóstolo da Igreja, então nenhum caso é perdido. Nenhum pecador está longe demais. Nenhum coração é duro demais para ser atingido pela graça. Paulo é a prova viva de que Deus não desiste — mesmo quando nós desistimos dele, mesmo quando lutamos contra ele, mesmo quando acreditamos, com toda a sinceridade, que lutamos a seu favor enquanto lutamos contra ele.

Porque esta é a lição mais perturbadora da conversão: Saulo não era um homem mau no sentido vulgar do termo. Não perseguia os cristãos por crueldade, por sadismo ou por ambição pessoal. Perseguia-os por zelo — por um amor sincero, embora terrivelmente equivocado, ao Deus de Israel. Estava convencido de que fazia a coisa certa. Estava convencido de que servia a Deus. E estava completamente errado. Isto é assustador, porque nos obriga a perguntar: quantas vezes nós mesmos, convictos de nossa retidão, imbuídos de nosso zelo, seguros de nossas certezas, estamos na verdade perseguindo Cristo sem o saber? Quantas vezes ferimos em nome da verdade? Quantas vezes condenamos em nome da justiça? Quantas vezes destruímos em nome do bem?

A conversão de Paulo não foi apenas uma mudança de religião — foi uma revolução de perspectiva. Saulo via o mundo a partir de si mesmo: da sua linhagem, da sua formação, da sua retidão. Paulo passou a ver o mundo a partir de Cristo: da graça recebida, do amor imerecido, da misericórdia que o alcançou no exato momento em que menos a merecia. "Pela graça de Deus sou o que sou" (1Cor 15,10) — esta é a confissão que sustenta tudo. Paulo não se vangloria de suas conquistas missionárias, de suas cartas geniais, de suas comunidades florescentes. Vangloria-se de uma coisa: de ter sido amado por Cristo quando era inimigo de Cristo. E desta experiência fundante — ser amado sem mérito, ser perdoado sem condição, ser chamado sem ser digno — nasce toda a teologia paulina da graça. Paulo não teorizou sobre a graça; foi atingido por ela. Não escreveu sobre o perdão de Deus como conceito abstrato; experimentou-o na carne, na cegueira, nas escamas que caíram dos olhos.

A estrada de Damasco não é apenas um evento do passado — é um lugar ao qual cada um de nós é conduzido em algum momento da vida. É o momento em que a luz nos derruba, em que nossas certezas desmoronam, em que descobrimos que estávamos cegos pensando que víamos. E é, paradoxalmente, o momento mais libertador de todos — porque é ali, no chão, prostrados, sem respostas, que finalmente ouvimos a voz que nos chama pelo nome e nos revela que, apesar de tudo, somos amados.

Oração

Ó Deus, que instruístes o mundo inteiro com a pregação do apóstolo São Paulo, concedei-nos, ao celebrar a sua conversão, que caminhemos ao vosso encontro seguindo o seu exemplo, e sejamos no mundo testemunhas da vossa verdade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.

(Oração Coleta da Festa da Conversão de São Paulo, Apóstolo — Missal Romano)

Fonte: Importacao calendario liturgico | Universal