Santos Timóteo e Tito
Segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Resumo do dia
A Igreja celebra juntos, no dia seguinte à Festa da Conversão de São Paulo, dois dos mais fiéis e amados colaboradores do Apóstolo dos Gentios: Timóteo e Tito — homens que Paulo não apenas converteu, formou e enviou em missão, mas a quem amou com ternura de pai, chamando um de "meu filho verdadeiro na fé" (1Tm 1,2) e outro de "meu verdadeiro filho segundo a fé que nos é comum" (Tt 1,4). A proximidade litúrgica com a festa de Paulo não é casual: Timóteo e Tito são inseparáveis de Paulo, como os ramos são inseparáveis do tronco. Foram seus companheiros de viagem, seus emissários nas horas difíceis, seus representantes diante de comunidades em crise, e, finalmente, os pastores a quem Paulo confiou a continuidade de sua obra quando pressentiu que a própria morte se aproximava. Neles, vemos como o carisma apostólico de Paulo não morreu com ele, mas foi transmitido — de coração a coração, de mão a mão — à geração seguinte, garantindo que o Evangelho continuasse a caminhar pelo mundo depois que a voz do grande apóstolo se calou.
São Timóteo nasceu em Listra, pequena cidade da região da Licaônia, na parte central da atual Turquia — uma cidade provinciana, distante dos grandes centros culturais, habitada por uma mistura de gregos, romanos e nativos licaônios que ainda falavam seu dialeto local. A origem familiar de Timóteo era, em si mesma, um símbolo do mundo que Paulo evangelizava: seu pai era grego — pagão, provavelmente não convertido — e sua mãe, Eunice, era judia que abraçara a fé cristã. Sua avó, Loide, era igualmente crente. Paulo, escrevendo anos depois a Timóteo, recordaria com ternura a fé dessas duas mulheres: "Evoco a lembrança da fé sincera que há em ti, a qual habitou primeiro em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e estou convencido de que habita também em ti" (2Tm 1,5). Timóteo foi, portanto, fruto de uma fé doméstica — transmitida não no Templo de Jerusalém nem nas sinagogas da diáspora, mas na intimidade de um lar onde uma avó e uma mãe rezavam, liam as Escrituras e plantavam no coração de um menino a semente que Paulo viria regar.
Apesar de ter mãe judia, Timóteo não fora circuncidado na infância — provavelmente por influência do pai grego. Este detalhe, aparentemente menor, teria importância prática significativa quando Paulo o recrutou para a missão.
O encontro de Timóteo com Paulo ocorreu durante a segunda viagem missionária do apóstolo, por volta do ano 49 ou 50 d.C., quando Paulo e Silas passaram por Listra e Derbe. Paulo já estivera em Listra na primeira viagem (At 14), quando fora inicialmente aclamado como deus (os licaônios confundiram-no com Hermes) e depois apedrejado por judeus hostis que o arrastaram para fora da cidade e o deram por morto. É possível — embora não certo — que o jovem Timóteo tenha testemunhado este episódio dramático, e que a coragem de Paulo diante do apedrejamento tenha deixado marca profunda em sua alma.
Quando Paulo retornou a Listra, encontrou Timóteo já convertido e crescido na fé — provavelmente fruto da primeira evangelização paulina na região. O jovem tinha uma reputação excelente: "Os irmãos de Listra e Icônio davam dele bom testemunho" (At 16,2). Paulo viu nele algo especial — não apenas a fé sincera, mas um conjunto de qualidades que o tornavam ideal para a missão: sensibilidade espiritual, fidelidade, capacidade de aprendizado, disposição para o sacrifício. Decidiu levá-lo consigo como companheiro de viagem e discípulo.
Antes de partir, porém, Paulo tomou uma decisão que parece paradoxal à luz de sua própria teologia: circuncidou Timóteo (At 16,3). Paulo, o apóstolo que lutara com todas as forças contra a imposição da circuncisão aos gentios convertidos, o homem que escrevera aos Gálatas com indignação que "se vos deixais circuncidar, Cristo de nada vos servirá" (Gl 5,2), circuncidou pessoalmente o seu jovem discípulo. A razão, porém, não era teológica, mas pastoral e estratégica: como a mãe de Timóteo era judia, os judeus da região o consideravam judeu — e um judeu incircunciso seria inaceitável nas sinagogas que Paulo sempre visitava primeiro em cada cidade. A circuncisão de Timóteo não era uma concessão doutrinária, mas uma adaptação missionária — um exemplo do princípio que Paulo formularia mais tarde: "Fiz-me judeu com os judeus, para ganhar os judeus; fiz-me tudo para todos, para salvar ao menos alguns" (1Cor 9,20.22). Para Paulo, a circuncisão em si era indiferente — o que importava era a fé que opera pela caridade. E se circuncidar Timóteo abria portas para o Evangelho, circuncidá-lo seria um ato de amor, não de contradição.
A partir daquele momento, Timóteo tornou-se o mais constante e fiel companheiro de Paulo — mais presente do que Barnabé, mais próximo do que Silas, mais duradouro do que qualquer outro colaborador. Acompanhou Paulo durante a segunda viagem missionária, passando pela Macedônia e pela Grécia: esteve em Filipos (onde Paulo e Silas foram presos e miraculosamente libertados pelo terremoto), em Tessalônica (de onde foram expulsos pela turba), em Bereia (onde ficou para consolidar a comunidade quando Paulo teve de fugir) e, provavelmente, em Atenas e Corinto. Na terceira viagem missionária, esteve com Paulo em Éfeso durante o tumultuoso período de três anos em que o apóstolo evangelizou a capital da província da Ásia. Seu nome aparece como co-remetente em nada menos do que seis cartas paulinas — 2 Coríntios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Tessalonicenses e Filêmon —, o que demonstra não apenas sua presença física ao lado de Paulo, mas o reconhecimento de sua autoridade e de sua participação ativa na formulação das mensagens apostólicas.
Paulo usava Timóteo como seu emissário pessoal nas situações mais delicadas — aquelas em que era necessário alguém de absoluta confiança, que representasse fielmente o pensamento do apóstolo e que tivesse o tato pastoral para lidar com comunidades em crise. Quando a Igreja de Tessalônica enfrentou perseguições e dúvidas sobre a volta de Cristo, Paulo enviou Timóteo para fortalecê-la: "Enviamos Timóteo, nosso irmão e cooperador de Deus no Evangelho de Cristo, para vos fortalecer e animar na vossa fé" (1Ts 3,2). Quando a comunidade de Corinto — a mais turbulenta e problemática de todas as igrejas paulinas, dividida por facções, abalada por escândalos morais e confusa em questões doutrinárias — precisou de intervenção urgente, Paulo enviou Timóteo: "Enviei-vos Timóteo, que é meu filho amado e fiel no Senhor. Ele vos recordará os meus caminhos em Cristo" (1Cor 4,17). Quando Paulo, preso em Roma, precisou de notícias da querida comunidade de Filipos, pensou imediatamente em Timóteo: "Não tenho ninguém tão dedicado, que se preocupe sinceramente convosco. Todos buscam os seus próprios interesses, não os de Jesus Cristo. Mas vós conheceis o mérito de Timóteo: como um filho ao lado do pai, ele serviu comigo ao Evangelho" (Fl 2,20-22). Este elogio — "não tenho ninguém como ele" — é talvez o mais elevado que Paulo dirigiu a qualquer ser humano.
As palavras de Paulo revelam também algo sobre o temperamento de Timóteo, que era marcadamente diferente do de seu mestre. Onde Paulo era vulcânico, impetuoso, confrontador quando necessário, Timóteo era reservado, sensível e propenso à timidez. Várias passagens das cartas sugerem que Timóteo sofria de insegurança e de uma certa fragilidade emocional que podiam paralisá-lo diante de situações de conflito. Paulo precisou encorajá-lo repetidamente: "Quando Timóteo chegar, tratai de que esteja sem temor entre vós" (1Cor 16,10). E nas cartas pastorais: "Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de prudência. Não te envergonhes, portanto, do testemunho do nosso Senhor" (2Tm 1,7-8). E ainda: "Ninguém te despreze por seres jovem" (1Tm 4,12). Paulo conhecia as fraquezas de seu discípulo — e amava-o não apesar delas, mas com elas, trabalhando pacientemente para transformar a timidez em prudência e a sensibilidade em compaixão pastoral.
Timóteo sofria também de problemas de saúde frequentes — especialmente do estômago. Paulo aconselhou-o com uma preocupação quase maternal: "Não bebas somente água; toma também um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades" (1Tm 5,23). Este conselho, aparentemente trivial, revela a profundidade da relação: Paulo, o gigante teológico que escrevia sobre justificação, graça e escatologia, preocupava-se com o estômago de seu discípulo. A santidade não ignora o corpo; o amor apostólico desce até os detalhes mais humildes da vida concreta.
Segundo a tradição, Paulo confiou a Timóteo a liderança da Igreja de Éfeso — a maior e mais importante comunidade cristã da Ásia Menor, fundada pelo próprio Paulo e amadurecida por anos de pregação apostólica. É a Timóteo, como bispo de Éfeso, que as duas Cartas a Timóteo (1 e 2 Timóteo) são dirigidas — cartas que constituem, junto com a Carta a Tito, as chamadas Epístolas Pastorais, assim denominadas porque tratam das responsabilidades de governo e pastoreio das comunidades cristãs. Nestas cartas — escritas provavelmente nos últimos anos da vida de Paulo, durante ou após sua primeira prisão romana —, o apóstolo transmite a Timóteo instruções sobre a organização da Igreja (qualidades dos bispos, diáconos e presbíteros), a defesa contra falsas doutrinas, o cuidado com as viúvas e os idosos, a disciplina do clero e, sobretudo, a fidelidade ao Evangelho recebido.
A Segunda Carta a Timóteo é considerada por muitos estudiosos o testamento espiritual de Paulo — a última carta que escreveu, provavelmente da prisão romana, pouco antes do martírio. O tom é de uma intimidade e de uma solenidade que comovem até os leitores mais distantes da fé. Paulo sabe que vai morrer: "Quanto a mim, já estou sendo oferecido em libação, e o tempo da minha partida chegou. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça" (2Tm 4,6-8). E pede a Timóteo, com urgência de quem sabe que é a última vez: "Vem depressa ao meu encontro" (2Tm 4,9). E: "Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, sobretudo os pergaminhos" (2Tm 4,13). Este pedido — a capa contra o frio da prisão, os livros para continuar estudando mesmo diante da morte — é um dos detalhes mais humanos e tocantes de todo o Novo Testamento. Paulo, nas vésperas do martírio, sentia frio e queria ler.
A tradição é unânime em afirmar que Timóteo atendeu ao chamado de Paulo e esteve com ele em Roma nos últimos dias. A Carta aos Hebreus, cujo autor é debatido, menciona que "o nosso irmão Timóteo foi libertado" (Hb 13,23) — indicando que, em algum momento, Timóteo também foi preso pela fé.
Após a morte de Paulo, Timóteo continuou como bispo de Éfeso, governando a comunidade com a fidelidade que seu mestre lhe ensinara. Segundo a tradição preservada por Eusébio de Cesareia e pelos Atos apócrifos de Timóteo (texto tardio, de historicidade debatida), Timóteo morreu mártir em Éfeso, provavelmente no ano 97 d.C., durante o reinado do imperador Nerva ou nos últimos anos de Domiciano. O relato mais difundido narra que Timóteo, já idoso, tentou impedir uma procissão pagã em honra de Dionísio (ou de Ártemis/Diana, a grande deusa de Éfeso) durante a festa das Katagogia. A multidão enfurecida atacou-o com paus e pedras, espancando-o até a morte. Seu corpo foi sepultado em Éfeso, e suas relíquias foram posteriormente trasladadas para Constantinopla em 356, onde foram depositadas na Igreja dos Santos Apóstolos, ao lado das relíquias de Santo André e de São Lucas — companhia que testemunhava a estima em que a Igreja primitiva tinha o fiel discípulo de Paulo.
São Tito nasceu numa família grega pagã, provavelmente na Antioquia da Síria ou em alguma cidade da região helenística, embora as fontes não precisem o local. Diferentemente de Timóteo, que tinha sangue judeu por parte da mãe, Tito era inteiramente gentio — grego de nascimento, incircunciso, sem qualquer ligação prévia com o judaísmo. Esta identidade fazia dele, aos olhos de Paulo, um símbolo vivo da universalidade do Evangelho: a prova ambulante de que a graça de Cristo não conhece fronteiras étnicas, culturais ou rituais. Se Timóteo, meio judeu, representava a ponte entre Israel e os povos, Tito representava a porta totalmente aberta — o gentio puro que, pela fé e somente pela fé, tornara-se filho de Deus e herdeiro das promessas de Abraão.
O momento e as circunstâncias da conversão de Tito não são narrados com precisão, mas tudo indica que foi convertido pelo próprio Paulo, provavelmente durante os primeiros anos da missão em Antioquia da Síria, o grande centro de onde partiram as viagens missionárias. Paulo chama-o "meu verdadeiro filho segundo a fé que nos é comum" (Tt 1,4), expressão que sugere uma relação de paternidade espiritual direta — Paulo o gerou para a fé, assim como gerara Timóteo.
A primeira aparição de Tito na história documentada é extraordinariamente significativa. Paulo o levou consigo a Jerusalém, por volta do ano 49 d.C., para o encontro decisivo com os apóstolos e anciãos da Igreja-mãe — o episódio que ficou conhecido como o Concílio de Jerusalém (narrado em At 15 e, sob a perspectiva de Paulo, em Gl 2,1-10). A questão central era explosiva: deviam os gentios convertidos submeter-se à circuncisão e à Lei de Moisés? Paulo levou Tito como um caso concreto — um cristão grego, incircunciso, cheio do Espírito Santo, de fé inabalável e de vida irrepreensível. Tito era o argumento vivo de Paulo: como exigir a circuncisão de um homem que, sem ela, já era evidentemente habitado pela graça de Deus?
Paulo narra o episódio na Carta aos Gálatas com uma firmeza que revela o quanto aquele momento foi decisivo: "Nem sequer Tito, que estava comigo e que era grego, foi obrigado a circuncidar-se" (Gl 2,3). O fato de Tito não ter sido circuncidado em Jerusalém — apesar da pressão dos "falsos irmãos" judaizantes que haviam se infiltrado na assembleia — constituiu uma vitória teológica de alcance histórico. Se Tito tivesse sido circuncidado, o princípio da salvação pela fé teria sido comprometido, e o Evangelho teria permanecido prisioneiro da Lei. Tito, simplesmente por ser quem era — grego, incircunciso, cristão —, tornou-se peça central no momento que definiu o futuro do cristianismo como religião universal.
Após o Concílio de Jerusalém, Tito tornou-se um dos colaboradores mais importantes e confiáveis de Paulo — e, em certo sentido, um colaborador de perfil diferente de Timóteo. Se Timóteo era o discípulo sensível, dócil e por vezes tímido, Tito era o homem de ação: enérgico, diplomático, capaz de enfrentar situações de conflito aberto com firmeza e habilidade. Paulo o empregou nas missões mais difíceis — não as que exigiam sensibilidade contemplativa, mas as que demandavam coragem, autoridade e capacidade de negociação.
O teste supremo das capacidades de Tito foi a missão em Corinto — a comunidade mais problemática do mundo paulino. A relação de Paulo com a Igreja de Corinto era uma das mais intensas e mais dolorosas de sua vida apostólica. Após a fundação da comunidade na segunda viagem missionária, Paulo enfrentou uma série de crises: divisões internas, imoralidade, contestação de sua autoridade apostólica, influência de pregadores rivais, confusões doutrinárias sobre a ressurreição, abusos na celebração da Eucaristia. Paulo escreveu múltiplas cartas aos coríntios (ao menos quatro, das quais duas se preservaram no cânon bíblico), fez uma visita dolorosa que terminou em humilhação pública, e chegou a momentos de angústia extrema sobre o futuro daquela comunidade.
Foi neste contexto que Paulo enviou Tito a Corinto como seu embaixador pessoal, portando uma carta severa (provavelmente a chamada "carta das lágrimas", mencionada em 2Cor 2,4, que não se conservou ou que alguns identificam com 2Cor 10-13). A missão de Tito era delicadíssima: reconciliar a comunidade com Paulo, restaurar a disciplina, resolver o caso de um membro que havia ofendido gravemente o apóstolo, e organizar a coleta em favor dos cristãos pobres de Jerusalém — um projeto que Paulo considerava essencial como sinal de comunhão entre as igrejas gentílicas e a Igreja-mãe judaica.
Tito cumpriu a missão com sucesso total. Quando Paulo, angustiado e sem notícias, encontrou-se com Tito na Macedônia, o relato que ouviu encheu-o de alegria e alívio: "Deus, que consola os humildes, consolou-nos com a chegada de Tito — e não somente com a sua chegada, mas também com a consolação que ele experimentou entre vós. Ele nos falou da vossa saudade, do vosso lamento, do vosso zelo por mim, de sorte que a minha alegria foi ainda maior" (2Cor 7,6-7). Paulo acrescenta um elogio revelador: "Além da nossa consolação, cresceu ainda mais a nossa alegria pela alegria de Tito, porque o seu espírito foi reconfortado por todos vós" (2Cor 7,13). E ainda: "Tito não vos explorou, pois não? Não procedemos no mesmo espírito? Não seguimos as mesmas pegadas?" (2Cor 12,18). Tito havia conseguido o que parecia impossível: reconciliar Corinto com Paulo, restaurar a ordem e lançar as bases para a continuidade da relação.
Paulo enviou Tito de volta a Corinto para completar a organização da coleta (2Cor 8,6.16-24), acompanhado de outros irmãos, e elogiou-o perante os coríntios com palavras que revelam a profundidade de sua confiança: "Quanto a Tito, ele é meu companheiro e cooperador junto de vós. Quanto aos nossos irmãos, eles são enviados das Igrejas, glória de Cristo" (2Cor 8,23). A palavra grega que Paulo usa para descrever Tito — koinōnos — significa "sócio", "parceiro", "companheiro de causa", com uma conotação de igualdade e confiança mútua que vai além da simples relação mestre-discípulo.
Após as viagens missionárias e a primeira prisão romana de Paulo, Tito foi enviado à ilha de Creta para organizar a Igreja que havia sido fundada ali, provavelmente pelo próprio Paulo durante uma viagem não registrada nos Atos. A Carta a Tito, uma das três Epístolas Pastorais, foi escrita por Paulo neste contexto — provavelmente entre a primeira e a segunda prisão romana, por volta de 63 a 65 d.C. Nela, Paulo instrui Tito sobre a organização das comunidades cretenses: a nomeação de presbíteros e bispos em cada cidade, as qualidades exigidas dos líderes, o combate aos falsos mestres (especialmente os da "circuncisão", ou seja, judaizantes), e a conduta cristã no meio de uma cultura que Paulo descreve com uma citação do poeta cretense Epimênides: "Os cretenses são sempre mentirosos, bestas ferozes, ventres preguiçosos" (Tt 1,12). Paulo confirma a citação com pragmatismo apostólico — "Este testemunho é verdadeiro!" (Tt 1,13) — e instrui Tito a repreender com firmeza para que se conservem sadios na fé. A franqueza é característica de Paulo e revela a confiança que depositava em Tito para lidar com uma situação pastoral desafiadora numa ilha de reputação difícil.
A Carta a Tito contém também algumas das mais belas e densas sínteses teológicas de Paulo, incluindo a célebre passagem: "Manifestou-se a graça de Deus, trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos a renunciar à impiedade e às paixões mundanas, para vivermos neste mundo com temperança, justiça e piedade, aguardando a bem-aventurada esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo" (Tt 2,11-13). E ainda: "Não por causa de obras de justiça que tivéssemos praticado, mas segundo a sua misericórdia, Ele nos salvou pelo banho da regeneração e da renovação no Espírito Santo, que Ele derramou abundantemente sobre nós por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador" (Tt 3,5-6). Estas palavras, dirigidas a Tito como instruções pastorais, tornaram-se pilares da teologia cristã da graça e da salvação.
Paulo pediu a Tito, na mesma carta, que fosse ao seu encontro em Nicópolis (provavelmente Nicópolis do Epiro, na costa ocidental da Grécia): "Quando eu te enviar Ártemas ou Tíquico, apressa-te a vir ter comigo em Nicópolis, pois é aí que resolvi passar o inverno" (Tt 3,12). É a última menção direta a Tito nas cartas paulinas autênticas, embora a Segunda Carta a Timóteo mencione brevemente que "Tito partiu para a Dalmácia" (2Tm 4,10) — indicando que, nos últimos dias de Paulo, Tito estava em missão na região da costa adriática dos Bálcãs (a atual Croácia), possivelmente evangelizando novas comunidades.
A tradição posterior, preservada por Eusébio de Cesareia e confirmada pela tradição cretense que se mantém viva até hoje, afirma que Tito retornou a Creta, onde exerceu o ministério de primeiro bispo da ilha durante décadas. Governou a Igreja cretense com o vigor e a sabedoria que Paulo reconhecera nele, organizando comunidades, formando clero e enfrentando as dificuldades de uma evangelização em terra pagã e de cultura resistente. Segundo a tradição cretense, Tito faleceu em paz em Gortina, antiga capital de Creta, por volta do ano 96 ou 107 d.C., em idade muito avançada. A Catedral de São Tito em Heraclião (Iráklio), capital atual de Creta, conserva o seu crânio como relíquia preciosa — devolvida à ilha em 1966 pelo Papa Paulo VI após séculos de custódia veneziana — e é um dos centros de peregrinação mais importantes da Igreja grega. São Tito é venerado como o Apóstolo de Creta e padroeiro da ilha, e sua memória é celebrada com grande solenidade tanto pelos cristãos ortodoxos quanto pelos católicos da região.
A celebração conjunta de Timóteo e Tito ilumina uma verdade essencial sobre a natureza da Igreja: o Evangelho não se transmite no vácuo, mas de pessoa a pessoa, de coração a coração. Paulo não era um gênio solitário trabalhando numa torre de marfim teológica — era o centro de uma vasta rede de colaboradores, homens e mulheres, judeus e gentios, que partilhavam com ele os riscos, os sofrimentos e as alegrias da missão. Timóteo e Tito são os rostos mais visíveis desta rede — mas, por trás deles, estavam dezenas de outros cujos nomes Paulo preservou com carinho nas saudações de suas cartas: Priscila e Áquila, Lídia, Febe, Epafras, Epafrodito, Lucas, Marcos, Filemom, Onésimo, Tíquico, Trófimo, Erasto — uma constelação de santos anônimos sem os quais a missão paulina não teria sido possível.
Timóteo e Tito representam dois modelos complementares de serviço apostólico. Timóteo é o discípulo fiel, sensível, contemplativo, que serve pela docilidade e pela constância silenciosa. Tito é o colaborador enérgico, diplomático, resolutivo, que serve pela ação e pela capacidade de enfrentar crises. A Igreja precisa de ambos — de Timóteos que guardem a doutrina com ternura e de Titos que organizem a missão com firmeza. Paulo soube reconhecer, valorizar e empregar os dons diferentes de cada um, sem tentar moldar um à imagem do outro — lição de liderança que permanece válida em qualquer tempo.
Meditação
Há uma tentação sutil que acompanha a veneração dos grandes santos: a de imaginar que a obra de Deus depende apenas dos gigantes. Paulo, o convertido da estrada de Damasco, o teólogo da graça, o fundador de igrejas, o autor de cartas que mudaram o mundo — Paulo é tão imenso que parece bastar a si mesmo. E, no entanto, não bastava. Paulo precisou de Timóteo. Precisou de Tito. Precisou de mãos que levassem suas cartas, de vozes que repetissem suas palavras, de corações que amassem as comunidades que ele fundava e depois era forçado a deixar. Precisou de gente comum — um jovem tímido com problemas de estômago e um grego prático com talento para resolver crises.
Esta é uma das verdades mais consoladoras do Evangelho: Deus não obra apenas através dos Paulos. Obra através dos Timóteos e dos Titos — através dos que não escrevem cartas imortais, mas as entregam; dos que não fundam igrejas, mas as mantêm; dos que não fazem discursos diante do Areópago, mas visitam os doentes num dia de chuva; dos que não são chamados por uma luz no caminho de Damasco, mas por uma avó que reza no silêncio da casa.
Timóteo nos ensina que a timidez não é impedimento para a santidade — e que o medo, quando atravessado pela confiança em Deus, transforma-se em coragem. Tito nos ensina que o senso prático, a energia organizadora e a capacidade de resolver problemas concretos são dons do Espírito tanto quanto a contemplação e a mística. Nenhum dom é pequeno demais para a missão. Nenhum servo é insignificante demais para o Senhor.
E há, por fim, aquele pedido de Paulo, da prisão, dirigido a Timóteo: "Vem depressa ao meu encontro." O maior apóstolo do mundo, nas vésperas da morte, não pediu um argumento teológico, não pediu um milagre, não pediu um exército. Pediu um amigo. Pediu a presença daquele jovem que era seu filho na fé, seu companheiro na missão, sua consolação na solidão. Porque até os gigantes precisam de alguém que lhes traga a capa contra o frio — e às vezes esse alguém é o maior presente de Deus.
Oração
Ó Deus, que adormastes com as virtudes apostólicas os santos bispos Timóteo e Tito, concedei-nos, por intercessão de ambos, que, vivendo neste mundo com justiça e piedade, possamos chegar à pátria celeste. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.
(Oração Coleta da Memória dos Santos Timóteo e Tito, Bispos — Missal Romano)
Fonte: Importacao calendario liturgico | Universal