Santo Onésimo
Terça-feira, 16 de fevereiro de 2027
Resumo do dia
A história de Santo Onésimo é uma das mais belas ilustrações de como o Evangelho de Cristo é capaz de subverter as estruturas sociais mais rígidas do mundo antigo, transformando um fugitivo sem direitos num "irmão amado" e, posteriormente, num pastor da Igreja. Onésimo era um escravo — um doulos, na linguagem da época — pertencente a Filêmon, um cristão influente e próspero da cidade de Colossos, na Frígia (atual Turquia).
O nome "Onésimo", em grego, significa "Útil", mas sua trajetória inicial parecia ironizar esse significado. Por razões que o texto bíblico sugere terem sido financeiras ou de mau comportamento, Onésimo fugiu da casa de seu senhor, possivelmente levando consigo bens ou dinheiro que não lhe pertenciam. Naquele tempo, a fuga de um escravo era um crime gravíssimo, punível com a morte ou com a marcação a ferro quente na testa com a letra "F" (fugitivus). Na imensidão do Império Romano, Onésimo buscou o anonimato das multidões de Roma para se esconder, mas o que ele encontrou foi a "rede" da Providência Divina.
Em Roma, por circunstâncias providenciais, o escravo foragido encontrou-se com São Paulo, que estava sob prisão domiciliar. O encontro foi transformador. Paulo, o "prisioneiro de Cristo", não olhou para Onésimo como um objeto descartável ou um criminoso social, mas como uma alma sedenta. Ele o instruiu, o confortou e o batizou. Naquela masmorra, Onésimo deixou de ser um escravo em fuga para se tornar, como Paulo escreveu, o filho que ele "gerou entre algemas" (Fm 1,10). O homem que antes era "inútil" para Filêmon, tornava-se agora "útil" para o Reino de Deus.
A maturidade espiritual de Onésimo foi tamanha que Paulo desejava mantê-lo ao seu lado para o serviço do Evangelho. Contudo, para que a justiça fosse plenamente restaurada e o perdão fosse um ato de caridade livre, Paulo tomou uma decisão radical: enviou Onésimo de volta a Filêmon, em Colossos. Ele não o enviou sozinho, mas portando uma das cartas mais pessoais e comoventes do Novo Testamento — a Epístola a Filêmon. Nela, Paulo faz um apelo revolucionário para a época: pede que Filêmon receba Onésimo "não mais como escravo, mas como um irmão caríssimo" (Fm 1,16). Paulo chega a se oferecer para pagar qualquer dívida que o escravo tivesse deixado: "Se ele te causou algum prejuízo ou te deve alguma coisa, lança-o na minha conta" (Fm 1,18).
Segundo a tradição e o testemunho de Santo Inácio de Antioquia, Filêmon não apenas perdoou Onésimo, mas o libertou para que ele pudesse se dedicar inteiramente ao ministério. Onésimo teria retornado a Roma para servir a Paulo em seus últimos dias e, mais tarde, teria sido consagrado Bispo de Éfeso, sucedendo a São Timóteo. Sua vida, iniciada nos farrapos da escravidão e do medo, terminou na glória do testemunho. Sob o reinado do imperador Domiciano (ou Trajano, segundo outras fontes), Onésimo foi preso por sua pregação e levado a Roma, onde foi martirizado, sendo apedrejado e, por fim, decapitado, confirmando com o sangue a liberdade que havia encontrado em Cristo.
Meditação
Santo Onésimo nos ensina sobre a arquitetura da graça. Ele é o exemplo perfeito de que ninguém está tão longe ou tão "perdido" que o amor de Deus não possa alcançar. Muitas vezes, nós nos sentimos como "escravos fugitivos" de nossas próprias responsabilidades ou do próprio Deus, tentando nos esconder na multidão das nossas ocupações. Onésimo nos mostra que o encontro com Cristo não é apenas um consolo espiritual, mas uma restauração da nossa dignidade. Ele recuperou o seu nome — tornou-se verdadeiramente "Útil".
A relação entre Paulo, Filêmon e Onésimo revela o poder revolucionário da fraternidade cristã. Num mundo que dividia os seres humanos entre "senhores" e "propriedades", Paulo introduz a categoria do "irmão". O Evangelho não derrubou as muralhas da escravidão romana com exércitos, mas com algo muito mais potente: a consciência de que, em Cristo, todos temos o mesmo Pai. A história de Onésimo nos desafia a olhar para as pessoas que o mundo rotula como "úteis" ou "inúteis" sob a ótica da eternidade.
Por fim, Onésimo nos convida a assumir as consequências da nossa conversão. Ele aceitou voltar e enfrentar o seu passado. O perdão cristão não é um apagamento cínico dos erros, mas uma reparação corajosa. Onésimo voltou para pedir perdão, e Filêmon abriu as portas para acolhê-lo. Isso nos lembra que a paz interior só é plena quando buscamos, na medida do possível, reconciliar-nos com aqueles que ferimos. A liberdade de Onésimo não foi conquistada na fuga para Roma, mas no momento em que ele, livre de espírito, olhou nos olhos de seu antigo senhor e viu ali um irmão.
Oração
Ó Deus, que pela pregação do apóstolo São Paulo chamastes o escravo Onésimo das trevas do erro para a luz da verdade e da escravidão do pecado para a liberdade de vossos filhos, concedei-nos, por sua intercessão, que, sendo libertos de todos os nossos vícios, saibamos servir-vos com um coração puro e viver com todos os homens na caridade e na paz de irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.