São Fabiano
Terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Resumo do dia
Fabiano nasceu em Roma nos últimos anos do século II, provavelmente por volta de 200. Pouco se sabe sobre sua infância e juventude. As fontes antigas indicam que era de origem romana, leigo, e que não pertencia ao alto clero da cidade. Não era sacerdote, não era diácono, não ocupava qualquer posição de destaque na hierarquia eclesiástica. Era, ao que tudo indica, um cristão simples, devoto, de vida íntegra, mas sem notoriedade pública — um homem que a história jamais teria registrado, não fosse a intervenção surpreendente da Providência divina.
No ano 236, a Igreja de Roma encontrava-se reunida para eleger o sucessor do Papa Antero, que havia governado por apenas quarenta e três dias antes de falecer — possivelmente mártir da perseguição do imperador Maximino Trácio, o brutal soldado de origem bárbara que havia assassinado o imperador Alexandre Severo e iniciado uma perseguição dirigida especialmente contra os líderes da Igreja. A assembleia do clero e do povo de Roma — pois na Igreja primitiva os bispos eram eleitos com a participação ativa dos fiéis — reuniu-se para escolher o novo papa. Os nomes mais proeminentes do clero romano estavam em disputa, e a eleição prometia ser contenciosa.
Foi então que ocorreu o episódio extraordinário narrado pelo historiador Eusébio de Cesareia na sua História Eclesiástica — uma das cenas mais singulares de toda a história do papado. Fabiano, que viera do campo para Roma, encontrava-se entre os presentes na assembleia, sem qualquer pretensão ou expectativa. Enquanto os nomes dos candidatos eram debatidos, uma pomba desceu do alto e pousou sobre a cabeça de Fabiano. A assembleia inteira emudeceu. O gesto evocava irresistivelmente a descida do Espírito Santo sobre Jesus no Batismo do Jordão. O clero e o povo, num impulso unânime que interpretaram como manifestação direta da vontade de Deus, aclamaram Fabiano como bispo de Roma, abandonando todos os outros candidatos. Eusébio compara a cena à escolha de Davi por Samuel: assim como Deus escolhera o mais improvável dos filhos de Jessé para ser rei de Israel, escolheu o mais improvável dos cristãos romanos para governar a sua Igreja.
Fabiano foi consagrado bispo de Roma em 10 de janeiro de 236, iniciando um pontificado que duraria quatorze anos — um dos mais longos e fecundos do século III, período extraordinariamente turbulento para a Igreja. Sua eleição, aparentemente miraculosa, demonstrou-se rapidamente confirmada pela qualidade excepcional de seu governo.
O pontificado de Fabiano coincidiu, em grande parte, com um período de relativa paz para os cristãos. Após a morte de Maximino Trácio em 238, os imperadores que se sucederam — Gordiano III, Filipe, o Árabe, e outros — foram tolerantes ou mesmo simpáticos ao cristianismo. O imperador Filipe, o Árabe (244–249), chegou a ser considerado por alguns autores antigos como secretamente cristão, embora esta tese seja debatida pelos historiadores. Independentemente das crenças pessoais de Filipe, seu reinado proporcionou à Igreja um período de tranquilidade que Fabiano soube aproveitar com notável visão administrativa e pastoral.
A mais importante e duradoura reforma de Fabiano foi a reorganização administrativa da Igreja de Roma. Dividiu a cidade em sete regiões eclesiásticas (correspondentes, aproximadamente, às regiões civis de Roma) e nomeou sete diáconos, cada um responsável por uma região. Estes sete diáconos — que ecoavam os sete diáconos escolhidos pelos Apóstolos em Atos dos Apóstolos 6,1-6 — tornaram-se os pilares da administração eclesiástica romana, encarregados não apenas da liturgia, mas sobretudo da assistência aos pobres, viúvas, órfãos, presos e doentes de seus respectivos distritos. A cada diácono foi atribuído um subdiácono encarregado de registrar e preservar as atas dos mártires — os relatos oficiais dos julgamentos e execuções dos cristãos que davam a vida pela fé.
Esta última medida revela a extraordinária consciência histórica de Fabiano. Num tempo em que as perseguições podiam irromper a qualquer momento, ele compreendeu que a memória dos mártires — seus nomes, suas palavras diante dos juízes, seus sofrimentos, sua coragem — era um tesouro inestimável para a fé da Igreja. Sem a sua iniciativa de sistematizar a coleta e preservação dessas atas, boa parte do patrimônio hagiográfico dos primeiros séculos teria se perdido irremediavelmente. Muitas das Acta Martyrum que a Igreja conserva até hoje devem sua existência, direta ou indiretamente, à estrutura documental criada por Fabiano.
Além da organização diaconal, Fabiano promoveu extensas obras nos cemitérios cristãos de Roma — as célebres catacumbas. Sob sua direção, as catacumbas de São Calisto, na Via Ápia, foram ampliadas e organizadas, tornando-se o principal cemitério papal e o local de sepultura de numerosos bispos de Roma e mártires. Fabiano supervisionou a escavação de novas galerias, a ornamentação dos túmulos e a organização dos espaços litúrgicos subterrâneos onde os cristãos celebravam a Eucaristia junto aos seus mortos — expressão concreta da fé na comunhão dos santos e na ressurreição da carne. As catacumbas de São Calisto permanecem até hoje como um dos mais impressionantes testemunhos arqueológicos do cristianismo primitivo.
Fabiano também exerceu importante papel na vida doutrinal e disciplinar da Igreja universal. As fontes indicam que manteve correspondência ativa com outras Igrejas e interveio em questões importantes. Foi durante seu pontificado que o célebre teólogo Orígenes de Alexandria — uma das mentes mais brilhantes e controversas do cristianismo antigo — escreveu-lhe defendendo a ortodoxia de suas doutrinas, que eram objeto de acusações por parte de outros bispos. O fato de Orígenes sentir necessidade de se justificar diante do bispo de Roma demonstra o prestígio e a autoridade que Fabiano havia conquistado para a Sé romana.
No âmbito missionário, Fabiano deu impulso decisivo à evangelização da Gália. Segundo Gregório de Tours, foi Fabiano quem enviou os primeiros bispos missionários à Gália, entre eles São Dionísio de Paris (Saint Denis), que se tornaria o primeiro bispo de Paris e mártir, patrono da França. Embora a cronologia exata desta missão seja debatida (alguns historiadores a situam um pouco antes ou depois de Fabiano), a tradição associa firmemente o início da evangelização organizada da Gália ao impulso do Papa Fabiano, fazendo dele uma figura fundamental na história cristã da França.
Fabiano governou ainda o processo de reconciliação de lapsos — cristãos que haviam negado a fé durante a perseguição de Maximino Trácio e que, passado o perigo, desejavam retornar à comunhão da Igreja. Esta questão, delicadíssima, dividia as comunidades cristãs entre rigoristas (que recusavam qualquer readmissão) e indulgentes (que a concediam sem exigências suficientes). Fabiano adotou uma via equilibrada, estabelecendo processos penitenciais sérios mas misericordiosos, que serviriam de precedente para as grandes controvérsias sobre a readmissão dos lapsos que explodiriam após a perseguição seguinte.
A paz que Fabiano soube administrar tão bem terminou abruptamente. Em 249, o imperador Décio subiu ao poder e, determinado a restaurar as tradições religiosas romanas e a unidade do Império, lançou a primeira perseguição sistemática e universal contra os cristãos. Diferentemente das perseguições anteriores, que eram locais e esporádicas, o edito de Décio (emitido no início de 250) exigia que todos os habitantes do Império — sem exceção — oferecessem sacrifício público aos deuses romanos e obtivessem um certificado (libellus) comprovando o ato. Quem se recusasse seria preso, torturado e executado.
Décio compreendia que a força da Igreja estava na sua liderança. Por isso, dirigiu sua perseguição primeiramente contra os bispos — cortando a cabeça, esperava que o corpo morresse. O Papa Fabiano foi um dos primeiros alvos. Preso em Roma, foi submetido a julgamento e, recusando-se firmemente a sacrificar aos ídolos, foi martirizado em 20 de janeiro de 250. As circunstâncias exatas de sua morte não são detalhadas nas fontes — não se sabe se foi decapitado, queimado ou morto por outro suplício —, mas seu martírio é atestado de forma inequívoca pelos documentos mais antigos.
A notícia de sua morte abalou toda a cristandade. São Cipriano de Cartago, um dos maiores bispos e teólogos do século III, ao saber do martírio de Fabiano, escreveu-lhe um elogio que se tornou célebre: chamou-o de "homem incomparável" (incomparabilis vir) e disse que a glória de sua morte correspondeu à santidade e à pureza de sua vida. Vindo de Cipriano — ele próprio futuro mártir e um dos espíritos mais exigentes de seu tempo —, este elogio tem peso extraordinário. A perseguição de Décio foi tão violenta que a Igreja de Roma ficou mais de um ano sem papa: somente em março de 251 foi possível eleger o sucessor de Fabiano, São Cornélio, tamanha era a ferocidade da repressão.
O corpo de Fabiano foi sepultado na catacumba de São Calisto — aquela mesma que ele havia ampliado e embelezado durante o seu pontificado. Em 1915, arqueólogos descobriram na cripta papal de São Calisto uma lápide com a inscrição em grego: ΦΑΒΙΑΝΟΣ ΕΠΙ ΜΡ — "Fabiano, bispo, mártir". A simplicidade daquela inscrição, gravada sobre pedra tosca nas profundezas da terra, é um dos mais comoventes testemunhos materiais da Igreja primitiva: o nome de um papa que governou a maior comunidade cristã do mundo reduzido a três palavras numa pedra de catacumba — e, no entanto, preservado por dezessete séculos, como se a própria terra tivesse feito questão de não esquecer.
São Fabiano é celebrado como papa e mártir no dia 20 de janeiro, em memória facultativa que divide a data com São Sebastião, outro mártir romano. Sua festa é um convite a recordar que a Igreja dos primeiros séculos foi governada por homens que não buscaram o poder, mas que, chamados pela Providência — às vezes da forma mais inesperada —, serviram com inteligência, coragem e fidelidade, até o dom supremo de suas próprias vidas.
Meditação
A história de São Fabiano começa com uma pomba e termina com uma pedra — a pomba que desceu sobre ele no dia de sua eleição e a lápide que guardou seu nome nas catacumbas por quase dois milênios. Entre esses dois sinais, uma vida inteira de serviço fiel.
O que mais impressiona em Fabiano é como Deus escolhe os seus instrumentos. Ninguém o esperava. Ninguém o indicou. Nenhum grupo o apoiava. Era um rosto na multidão, um cristão comum vindo do campo. E foi exatamente ele que Deus escolheu — não os candidatos óbvios, não os nomes ilustres, não os que se julgavam preparados. Deus viu naquele homem simples o que os olhos humanos não enxergavam: um coração fiel, uma inteligência sábia, uma coragem que só se revelaria plenamente no dia do martírio.
E que administrador se revelou! Fabiano não foi apenas um santo piedoso — foi um organizador genial, um líder visionário que estruturou a Igreja de Roma com uma eficiência que durou séculos. Dividiu a cidade em distritos, organizou a caridade, preservou a memória dos mártires, expandiu os cemitérios, enviou missionários. Tudo isso em silêncio, sem alarde, com a constância de quem sabe que não trabalha para si, mas para Deus.
E quando veio a hora da prova suprema, Fabiano não fugiu. O mesmo homem que organizava arquivos e supervisionava catacumbas soube também derramar o próprio sangue. Porque a verdadeira grandeza não está na pomba que desce sobre nós — está no que fazemos com o chamado que ela representa. Fabiano fez tudo: serviu com inteligência, governou com justiça, morreu com coragem. E a terra guardou o seu nome.
Que o seu exemplo nos lembre que Deus não chama os preparados — prepara os chamados. E que não há serviço pequeno demais nem sacrifício grande demais para quem foi tocado pela pomba do Espírito.
Oração
Ó Deus todo-poderoso e eterno, que concedestes ao Papa São Fabiano a graça de governar a vossa Igreja com sabedoria e de dar a vida por ela no martírio, concedei-nos, por sua intercessão, a firmeza na fé e a generosidade no serviço, para que, fiéis ao chamado que nos fizestes, possamos perseverar até o fim. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.
(Oração Coleta da Memória de São Fabiano, Papa e Mártir — Missal Romano)
Fonte: Importacao calendario liturgico | Universal